quarta-feira, 13 de julho de 2011

Por que não devemos deixar alimentos dentro de latas? Qual o procedimento correto?

Embalagens de metal são utilizadas há décadas para conservação de alimentos, para não haver alteração do alimento armazenado. A lata recebe uma cobertura interna de verniz, que impede que o alimento interaja com o metal. Quando abrimos a lata, rompemos a proteção de verniz, o alimento entra em contato direto com o metal e se conservado dentro da mesma, poderá se contaminar, provocando alterações nas características químicas e sensoriais do alimento, tornando-o impróprio para o consumo (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMBALAGENS, 2011). 
A parte interna das latas exige tratamento cuidadoso, de modo a garantir proteção tanto ao produto embalado, quanto ao aço da embalagem. No caso dos alimentos, a preocupação é maior, tanto que os revestimentos precisam ser aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) (BRASIL,1996). Falhas do verniz podem permitir a contaminação do produto embalado, além de facilitar a proliferação de bactérias, entre as quais as do gênero Chlostridium, produtores da toxina botulínica (PINTO,1996).
De acordo com Silva Jr. (2010) o botulismo é uma forma de intoxicação alimentar que pode matar se não tratada a tempo. Quando o alimento é ingerido, a toxina é absorvida pelo aparelho digestório e entra na corrente sanguínea. Uma das principais conseqüências da intoxicação é a paralisia dos músculos, que é frequente entre os que estão sob efeito da toxina. Os sintomas da intoxicação pela toxina botulínica normalmente aparecem entre doze e trinta horas após a ingestão do alimento contaminado, sendo alguns deles: aversão à luz; visão dupla com dilatação da pupila; disfagia; paralisia respiratória, podendo levar à morte; constipação intestinal; retenção urinária e debilidade motora (SILVA JR., 2010).
Um outro ponto a ser destacado nos alimentos enlatados é a presença de resina epóxi e organosols de PVC, que fazem parte do verniz de proteção interna em latas de alimentos e bebidas, e também possuem o objetivo de proteção interna impedindo o contato de alimentos com os metais constituintes das latas. Entretanto, esse revestimento de latas pode apresentar resíduos de bisfenol A (BPA), que migram para os alimentos, especialmente quando em elevada temperatura. O BPA é considerado um disruptor endócrino, que imita a ação de nossos hormônios, trazendo diversas conseqüências ao organismo. A Diretiva Comissão Européia determinou um limite de migração específica de BPA de 0,6 µg/g de alimento (CAO et al., 2011).
Segundo estudo desenvolvido por Cao et al. (2011), em um total de 154 amostras de alimentos enlatados avaliadas na Cidade de Quebec (Canadá) quanto ao teor de BPA, 35 % das amostras (55) estavam com concentrações elevadas dessa substância, demonstrando que podem migrar ao alimento. Elevadas concentrações foram encontradas em peixe enlatado (106 ng/g), seguido por milho enlatado (83,7 ng/g), sopa enlatada (22,2 a 44,4ng/g), feijão enlatado (23,5 ng/g) e ervilha enlatada (16,8 ng/g).
Noonan, Ackerman e Begley (2011) detectaram a presença de BPA em 71 amostras de alimentos enlatados de 78 avaliadas. As concentrações encontradas foram de 2,6 a 730 ng/g. A elevada variação apresentada foi encontrada entre tipos de alimentos diferentes e diferentes lotes de um mesmo produto. Apesar da concentração de BPA ser menor que o limite máximo permitido (0,6 µg/g) apresentado anteriormente, destaca-se a preocupação com o excessivo consumo de alimentos enlatados.
Sendo assim, Santos Jr. (2008) recomenda que após a abertura de um alimento enlatado, a sobra da lata deve ser transferida para recipientes plásticos transparentes ou recipientes de vidro com tampa, etiquetando com nome do produto, fabricante, data de abertura da lata e validade (conforme indicação do fabricante ou conforme descrito na legislação vigente). Outra possibilidade é a transferência para sacos plásticos transparentes resistentes próprios para alimentos, sendo esta embalagem considerada primária, devendo ser protegida novamente com outro saco e etiquetada (SANTOSJR,2008).

PATRÍCIA CARMINA CARVALHO DOS SANTOS
Nutricionista
Técnica em Nutrição e Dietética
Assessoria em Nutrição em Unidades Produtoras de Refeições



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMBALAGENS. Anexo – Segurança alimentar e Embalagens. Disponível em: www.abre.org.br. Acesso dia: 07 de julho de 2011.  

CAO, X.L.; PEREZ-LOCAS, C.; DUFRESNE, G.; CLEMENT, G.; POPOVIC, S.; BERALDIN, F.; DABEKA, R.W.; FEELEV, M.  Concentrations of bisphenol A in the composite food samples from the 2008 Canadian total diet study in Quebec City and dietary intake estimates. Food Additives and Contaminantes, v.28, n.6, p.791-798, 2011.

NOONAM, G.O.; ACHEMAN, L.K.; BEGLEY, T.H. Concentration of Bisphenol A in Highly Consumed Canned Foods on the U.S. Market. Journal of Agricultural of Food Chemistry, v.59, n.13, p. 7178-7185,  2011.

SANTOS JR., C.J. Manual de Segurança Alimentar.  Rio de Janeiro: Editora Rubio, p.85-86, 2008.

SILVA JR., E.A. Manual de Controle Higiênico-Sanitário em Serviços de Alimentação. São Paulo: Editora Varela, 6 ed, p.49-55, 2010.

PINTO, A.F.M.A. Papel dos Microrganismos na Produção e na Transformação de Alimentos. Terra Fértil, v.1, p. 55-61, 1996.

BRASIL. Portaria nº. 28/MS/SNVS, 18 de março de 1996. Aprovar o regulamento técnico sobre as embalagens e equipamentos metálicos em contato com alimentos. Diário oficial 20 de março de 1996.


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